Cabeça Livre

Você não entende Bitcoin porque acha que dinheiro é real

Dólares são apenas uma ilusão em que mais pessoas acreditam com mais força

Fonte: Andrew Baker/Ikon Images/Getty

Fonte: Andrew Baker/Ikon Images/Getty

O Bitcoin é uma ilusão, uma alucinação em massa, é o que algumas pessoas falam. São apenas números no ciberespaço, uma miragem, inconsistente como uma bolha de sabão. O Bitcoin não é apoiado por outra coisa que não seja a crença dos tolos que o compram e dos mais tolos ainda que o compram desses tolos menores. Sabe de uma coisa? Bastante justo. Tudo isso é verdade.

O que talvez seja menos fácil de entender é que os dólares americanos também são uma ilusão. Eles também consistem principalmente em números por aí no ciberespaço. Às vezes, eles são armazenados em cédulas de papel ou moedas, mas enquanto as cédulas e as moedas são materiais, os dólares que elas representam não são. Os dólares americanos não são apoiados por outra coisa que não seja a crença dos tolos que o aceitam como pagamento e de outros tolos que concordam, por sua vez, em aceitá-lo como pagamento dos primeiros. A principal diferença é que, por agora, pelo menos, a ilusão, no caso dos dólares, tem mais pessoas que acreditam com mais força.

De fato, quase todos os dólares americanos, cerca de 90 por cento, são puramente abstratos — eles literalmente não existem em nenhuma forma que podemos tocar. James Surowiecki reportou em 2012 que “apenas 10% da oferta de dinheiro dos EUA — cerca de US$ 1 trilhão do total de aproximadamente US$ 10 trilhões — existe na forma de cédulas de papel e moedas”. (Agora, o número parece ser de cerca de US$ 1,5 trilhão de US$ 13,7 trilhões). Não há nada que impeça o sistema bancário de criar mais dólares sempre que der vontade. Dos US$ 13,7 trilhões do suprimento de dinheiro M2 em outubro de 2017, US$ 13,5 trilhões foram criados após 1959 — ou, vendo em perspectiva, o M2 cresceu quase 50 vezes.

O dólar americano é o que é conhecido como moeda fiduciária (no inglês, fiat currency). Fiat é uma palavra em latim que significa “que haja”, como em fiat lux, que haja luz; portanto, fiat denarii, que haja liras, bolívares, dólares e rublos. A tentação dos líderes dos estados-nação de fabricar dinheiro tem sido praticamente irresistível ao longo da história. Um resultado evidente dessa promiscuidade é a inflação: o poder de compra de US$ 1 em 1959 está agora um pouco abaixo de 12 centavos.

A blockchain do bitcoin foi criada, em parte, para lidar com essa fraqueza histórica. Depois que o 21º milionésimo bitcoin for minerado, por volta de 2140, o sistema não produzirá mais.

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Charlatões e ladrões sempre tentarão manipular as várias estruturas criadas para controlar e/ou contabilizar qualquer sistema monetário e, de fato, qualquer reserva de valor (veja: os trapaceiros dos Panama Papers e dos Paradise Papers, Bernard Cornfeld e Bernard Madoff, o London Whale, LTCM e BCCI, os roubos inteligentes e silenciosos de tesouros do Museu Gardner em Boston, a crise financeira de 2008 e as consecutivas injeções de liquidez e os roubos à Mt. Gox, DAO e Tether). Todas as reservas de valor são alvos. E usando qualquer sistema de troca — por meios justos ou desonestos — fortunas podem e serão feitas e perdidas. E, no entanto, por mais surpreendente que possa parecer às vezes, há muitas pessoas agindo de boa fé para impedir que sistemas monetários entrem em colapso por completo.

Existem algumas diferenças radicais entre criptomoedas e dólares americanos. Por exemplo, as transações conduzidas no sistema de bitcoin são registradas em um livro razão não falsificável que se apoia não na autoridade de bancos ou governos, mas na força de uma rede pública de computadores da qual (na teoria, pelo menos) qualquer pessoa pode participar. Além disso, novamente, a oferta de bitcoins é fixa em última análise. O anonimato da criptomoeda não é, talvez, tão à prova de balas quanto o anonimato do dinheiro (não marcado).

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O dinheiro em si é uma ilusão, uma alucinação em massa. Você está trabalhando duro para ganhá-lo, crescê-lo e mantê-lo, mas mesmo assim, a única parte real dele é o seu poder simbólico. O que é realmente incrível, de certo ponto de vista.

Nossa crença coletiva no valor daquele pedaço de papel pintado de verde, daquele Krugerrand, daquele token de ether ou daquela moeda britânica de uma libra é o que importa. E essa crença coletiva não tem significado fixo; está em fluxo eterno. O “valor” de todo o dinheiro, todas as lojas de câmbio, é instável e abstrato, mesmo diante de todas as tentativas de protegê-lo — digamos, com uma determinada taxa de câmbio contra vários ativos — ou de regular seu fluxo estabelecendo taxas de juros. O dinheiro é apenas uma rede em movimento de acordos feitos na e em nome da multidão, e isso é tudo que ele sempre foi — um fio frágil em uma rede de confiança humana.

Considere a “fuga de capitais” em que refugiados são forçados a trocar moedas com uma enorme perda para atravessar uma fronteira hostil. Isso é dinheiro, mas o que exatamente ele tem em comum com o dinheiro invisível que é seu contracheque? Ou uma série de números colidindo no ether com a série de números que é sua conta bancária? Talvez o preço do abacate ou do café aumente ou diminua entre o momento da colisão eletrônica no seu banco e o dia em que você for ao supermercado. Existem desastres naturais nos quais as pessoas de repente estão dispostas a pagar quantias muito infladas por alguns galões de água limpa. Qual é, então, o “valor de um dólar”?

Todos os argumentos mais comuns contra criptomoedas como bitcoin, e a tecnologia blockchain que as sustenta, invariavelmente falham ao deixar de levar esse fato — a natureza provisória e frágil do dinheiro comum — em consideração. As criptomoedas não podem ser entendidas nem um pouco por quem pensa que o dinheiro é real, sólido ou “apoiado por” algo além da confiança humana em instituições cuja estabilidade é sempre incerta. Um dólar americano é “apoiado por” “toda a fé e crédito nos Estados Unidos”. Mas o que isso quer dizer exatamente?

Isso quer dizer que, se você entregar um dólar para o Tesouro norte-americano e pedir para resgatá-lo, sabe o que eles farão? Eles darão a você… um dólar. Ou quatro moedas de 25 centavos, se você quiser, provavelmente.

O fato lamentável é que as crises monetárias em governos instáveis como os da Grécia, Venezuela e Espanha já ocasionaram uma série de picos nos mercados de criptomoedas. Quando o governo cipriota tentou resolver a crise bancária do país em 2013 sujeitando as contas bancárias de seus cidadãos a um confisco de quase 7%, o preço do bitcoin disparou, provavelmente porque, naquele momento, muitos europeus detentores de euros com governos muito endividados supuseram que o bitcoin poderia representar um lar mais confiável para o seu dinheiro do que os bancos cipriotas. Os correntistas dos bancos espanhóis devem ter se perguntado: seus próprios bancos seriam os próximos?

Em suma, nossas instituições financeiras existentes são profundamente falhas e permanentemente propensas à corrupção, e isso já muito antes do bitcoin brilhar nos olhos de seu misterioso inventor. Satoshi Nakamoto fez questão de declarar isso, de forma clara como o dia, no chamado “bloco de gênese” que deu início à circulação do bitcoin: “The Times 03/Jan/2009 Chanceler próximo de aprovar segundo financiamento público para segurar a falência dos bancos”. O Bitcoin foi um projeto motivado politicamente desde o início, um novo sistema explicitamente construído para fornecer um meio de troca digital à prova de fraude, no qual uma alternativa melhor aos nossos sistemas bancários existentes pode se basear.

A teoria por trás de todas as criptomoedas, incluindo o bitcoin, é que os registros produzidos por uma rede distribuída de computadores podem ser feitos à prova de adulteração, portanto, teoricamente garantindo a solidez de uma moeda melhor do que governos podem. E até agora, apesar de alguns consideráveis solavancos pelo caminho, o sistema de blockchain no qual o bitcoin é baseado tem, ao menos parcialmente, provado essa teoria. Um milhão de bitcoins ou mais foram roubados desde 2009, mas o livro razão distribuído do sistema subjacente, o sistema de contabilidade no qual o bitcoin se baseia, até agora permanece estável e incorruptível.

Os muitos roubos e transações mal feitas ocorridos nos primeiros dias do bitcoin trazem à mente o filme O tesouro de Sierra Madre, um belo drama de ganância e corrupção que se passa nos anos 1920. Não há dúvida de que a promessa de riqueza instantânea, tão perto que quase se pode tocar, pode levar as pessoas à loucura. Note, no entanto, que a propensão da ganância a produzir crime e insanidade não fez com que o valor do ouro evaporasse.

A real ressalva aqui é que a incorruptibilidade do livro razão do bitcoin sobreviveu, não apenas por causa da distribuição do sistema, não apenas por causa de sua proteção criptográfica inteligente, mas também por causa da boa fé e do bom senso de cada desenvolvedor que conduziu o projeto desde o seu engatinhar. Sem o auto controle de Gavin Andresen, que foi efetivamente o único comissário de bordo do bitcoin durante muitos de seus primeiros momentos de turbulência, o projeto poderia ter morrido facilmente. Ainda hoje, os vários forks e crises de adolescência que ainda atormentam o sistema bitcoin estão fazendo uma espécie de teste de estresse. No momento (essa é apenas a minha opinião), a relativa desconfiança dos desenvolvedores principais do bitcoin, que muitos acham que estão estrategizando para seu benefício próprio, pode estar causando dano a longo prazo não apenas à causa do bitcoin, mas também à promessa da tecnologia blockchain em geral.

Como um problema à parte, os especuladores de criptomoedas correram o risco de serem extorquidos, no começo, devido às dificuldades em (1) criar armazenamento seguro e (2) desenvolver sistemas para converter dinheiro comum de e para criptomoedas de forma segura. Por causa de desastres como o roubo de cerca de 800.000 bitcoins da corretora Mt. Gox, que foi descoberto em 2014, todo o ecossistema de criptomoedas teve uma espécie de má reputação. A impressão pública foi de que o bitcoin em si foi hackeado de alguma forma, quando na verdade foi a maior corretora que foi hackeada. Assim como o Banco Central de Bangladesh teve US$ 63 milhões roubados da sua conta no Federal Reserve Bank de Nova Iorque em 2016.

Dizer que “bitcoin é uma fraude” porque maus atores enganaram as pessoas é exatamente o mesmo que dizer que “a indústria de serviços financeiros é uma fraude” porque a empresa de Jamie Dimon está torta. O Bitcoin foi usado na dark web para comprar e vender drogas! Bem… a maioria das notas de cem dólares carrega vestígios de cocaína, então, se você não quiser guardar notas de cem dólares com você, pode enviá-las para mim. O fato de ser usado em transações criminais deslegitima o dinheiro? Não. A verdade é que o dinheiro está contaminado por sua própria natureza.

Muito em breve, o sistema de blockchain que agora está sendo usado para garantir as transações de bitcoin será transformado e combinado a outros sistemas, porque seu valor é incalculável. Investidores de Wall Street ao Vale do Silício já investiram quantias significativas de dinheiro, tempo e esforço em negócios baseados em blockchain. Em todos os lugares onde seres humanos precisam saber com certeza se algo realmente aconteceu ou não, a tecnologia blockchain pode ser programada para nos fornecer informações incorruptíveis sobre isso. Quaisquer que sejam os defeitos do sistema que Satoshi Nakamoto lançou em 2009 — e eles ainda são substanciais — ele provou que realmente existe uma forma de pessoas criarem registros de transações humanas garantidos e à prova de falhas, totalmente independentes de autoridades externas como bancos ou governos. Não tem como voltar atrás.

A luta pela estabilidade em qualquer moeda é um processo que acaba sempre por se perder, porque sempre que há uma chance de manipular ou forjar uma transação, a natureza humana é tal que alguns tentam trapacear. Até mesmo a limitada e precária estabilidade que temos nos países desenvolvidos exige vigilância e trabalho da parte de incontáveis pessoas com princípios, e nunca há certeza. A luta para preservar a ilusão de que o dinheiro é real nunca acaba, mas ele nunca poderá ser.

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