Cabeça Livre

Porque a perseguição a Julian Assange tem que acabar

Crédito da imagem: Cancillería del Ecuador / [Flickr](https://www.flickr.com/photos/dgcomsoc/14933990406/)

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Assange só estava fazendo o que a grande maioria da mídia tradicional há muito tempo negligencia: seu trabalho.

Em uma reviravolta um tanto surpreendente, o governo dos Estados Unidos acabou de ganhar uma apelação para extraditar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, do Reino Unido, em um esforço para processar o jornalista por acusações de espionagem que ele enfrenta por publicar informações da denunciante (whistleblower) Chelsea Manning. Essa tem sido uma busca que já dura anos para muitos nos mais altos escalões do governo norte-americano.

Assange se tornou conhecido em 2010, após publicar uma série de vazamentos que revelaram crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos – informações fornecidas pela analista de inteligência do Exército dos EUA e denunciante Chelsea Manning. As informações nesses vazamentos incluíam o vídeo do Assassinato Colateral do ataque aéreo a Bagdá, os registros da guerra do Afeganistão e do Iraque, e o “Cablegate” (telegramas diplomáticos dos Estados Unidos).

Após essas revelações, o governo dos EUA lançou uma investigação criminal sobre o WikiLeaks que acabou levando a uma acusação contra Assange. De acordo com a PBS, “a acusação inclui uma acusação de conspiração para hackear um computador para divulgar informações confidenciais que ‘poderiam ser usadas para ferir’ os EUA. De acordo com a acusação, Assange ‘conspirou’ com Manning ajudando-a a quebrar uma senha de um computador do Departamento de Defesa em março de 2010 que fornecia acesso a uma rede do governo dos EUA que armazenava informações e comunicações confidenciais”.

Mas, embora os EUA estejam atrás de Assange há algum tempo, eles têm enfrentado dificuldades para por as mãos nele. Assange se refugiou na embaixada do Equador em Londres por sete anos, onde era basicamente intocável. Uma série de desentendimentos entre Assange e o governo equatoriano acabou levando-o a ser expulso da embaixada, o que o tornou vulnerável aos esforços dos governos para extraditá-lo. Após sua saída em 2019, ele foi rapidamente preso no Reino Unido.

Essa prisão foi relacionada às acusações de que ele não cumpriu a fiança para escapar da extradição para a Suécia por causa de acusações de abuso sexual – retiradas posteriormente. Assange disse que as acusações eram um pretexto e que a Suécia estava conspirando para extraditá-lo para os Estados Unidos.

Assange, de 50 anos, está detido como prisioneiro político no Reino Unido desde então, enquanto o governo norte-americano continuou sua campanha para extraditá-lo. Se for forçado a voltar para os Estados Unidos, ele pode passar o resto da sua vida na prisão.

Muitos criticaram a perseguição do governo dos Estados Unidos a Assange, alegando que as acusações contra ele violam a Primeira Emenda. Estão em questão sérias preocupações com a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, para não falar da perseguição de denunciantes.

Herói ou vilão?

As opiniões sobre Assange são bastante divididas. Muitos acreditam que ele é um herói que arriscou repetidamente a própria vida e liberdade para alertar o público sobre a corrupção – alguns até dizem que ele é o pai do jornalismo investigativo moderno. Outros acreditam que ele é um traidor.

O que está claro é que Assange acumulou inimigos em ambos os lados do corredor político.

O diretor da CIA, Mike Pompeo, por exemplo, chamou o WikiLeaks de “serviço de inteligência hostil não estatal”. O procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, disse que prender Assange era uma prioridade. Um ex-funcionário, Daniel Domscheit-Berg, disse que Assange era “brilhante, paranóico e obcecado pelo poder”. E após a publicação pelo WikiLeaks de e-mails do Comitê Nacional do Partido Democrata que mostravam que o partido claramente trabalhou para fazer de Hillary Clinton a indicada sobre Bernie Sanders, as garras realmente apareceram. Hillary Clinton disse que Assange precisava responder pelo que havia feito. Chuck Schumer disse que esperava que Assange fosse “responsabilizado por sua intromissão em nossas eleições em nome de Putin e do governo russo”. E Diane Feinstein há muito defende sua extradição e processo.

Apesar do ódio bipartidário de Assange, as únicas pessoas que deveriam enfrentar acusações criminais em todo esse cenário são as pessoas em todo o governo norte-americano que são responsáveis ​​pelos crimes de guerra revelados pelo WikiLeaks, por Assange e Manning.

Assange só estava fazendo o que a grande maioria da mídia tradicional há muito tempo negligencia: seu trabalho. Sem esse tipo de reportagem e jornalismo de verdade, os cidadãos não teriam ideia do que o governo está realmente fazendo, as profundezas da corrupção nas guerras, as violações dos direitos humanos que cometem, como o dinheiro dos pagadores de impostos está sendo realmente gasto e o que está sendo feito em nome do país. Precisamos mais desse tipo de trabalho, muito mais. E a acusação de Assange faz uma coisa e apenas uma coisa – assusta outros jornalistas de fazerem seu trabalho.

Se Assange é um cara simpático ou não, isso é irrelevante. E a noção de que ele de alguma forma expôs segredos do governo dos EUA que tornaram os norte-americanos vulneráveis ​​é falsa. O que ele expôs foram crimes de guerra e crimes contra o povo norte-americano. Mesmo que isso tornasse o governo mais vulnerável (não deixou, não houve repercussões), seria uma troca válida para fazer o povo melhor informado.

Uma imprensa livre é inegociável

Os fundadores dos Estados Unidos dedicaram um tempo significativo para discutir a importância de uma imprensa livre.

“Se coubesse a mim decidir se deveríamos ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir o último”, disse Thomas Jefferson. Benjamin Franklin observou: “Quem quiser derrubar a liberdade de uma nação deve começar subjugando a liberdade de expressão”.

E eles não foram os únicos ao longo da história que reconheceram que uma imprensa livre é uma necessidade absoluta para a existência de um povo livre.

Nelson Mandela, outro prisioneiro político e uma pessoa que sabia uma coisa ou outra sobre perseguição, disse: “Uma imprensa crítica, independente e investigativa é a força vital de qualquer democracia. A imprensa deve ser livre da interferência do estado”.

Embora Julian Assange seja um dos jornalistas mais famosos atualmente sendo perseguidos por seu trabalho, é importante lembrar que ele não é o único. Em outros países, jornalistas são rotineiramente silenciados, torturados e até mortos. Jamal Khashoggi foi brutalmente assassinado no consulado de Istambul da Arábia Saudita, aliada dos EUA. A jornalista colombiana Claudia Duque foi repetidamente perseguida e atacada. E o jornalista mauritano Mohamed Cheikh Ould Mohamed recebeu uma sentença de morte por um artigo que escreveu. A perseguição à imprensa não é novidade, mas supõe-se que seja diferente nos Estados Unidos.

Nenhum país pode funcionar sem uma imprensa livre diligente que forneça ao povo o acesso à informação e educação de que necessita para responsabilizar seus governantes eleitos. Na verdade, limitar essa capacidade é uma ameaça muito maior à segurança nacional do que qualquer coisa que tenha sido vazada por Chelsea Manning ou publicada por Julian Assange.

O que está acontecendo com Assange é grotesco e uma questão internacional de direitos humanos. Ele tem sido prisioneiro político há mais de uma década, ele está sob constante ameaça de vários governos e sua saúde está seriamente comprometida. É hora de acabar com isso.

Assange não fez nada de errado e todos devemos nos unir à sua causa.

Autora: Hannah Cox

Hannah Cox é a gerente de conteúdo e embaixadora da marca da Foundation for Economic Education (FEE, “Fundação para Educação Econômica”).

Tradutor: Daniel Peterson

Esse texto é uma tradução da matéria originalmente escrita por Hannah Cox em 10 de dezembro de 2021 para a FEE.

O texto original, em inglês, publicado sob a licença CC BY 4.0, pode ser conferido em:

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