Cabeça Livre

O Teatro da Guerra: Vendo Além da Propaganda Rússia-Ucrânia

Ao contrário das guerras anteriores, o conflito na Ucrânia está passando nas redes sociais. Isso é tanto uma oportunidade quanto um perigo.

“Meu primeiro desejo é ver essa praga da humanidade banida da terra.”

George Washington escreveu isso sobre a guerra em uma carta em 1785 e, infelizmente, mais de 200 anos depois, ainda não vimos esse desejo (a que tantos se juntaram fervorosamente) se realizar.

A guerra é um evento repulsivo, banal e horrível. Suas realidades são tão traumatizantes e desumanas que dá um nó na cabeça pensar que homens e mulheres ainda se inscrevem para participar dela.

Mas, como disse recentemente Ron Paul, o povo americano tem bons instintos anti-guerra. Lamentavelmente, os propagandistas da guerra sempre trabalham no sentido de eliminá-los.

Esses propagandistas certamente têm trabalhado horas extras nas últimas semanas, enquanto o mundo tem assistido a Rússia invadir a Ucrânia e a crise humanitária resultante se desenrolar.

Ao contrário das guerras anteriores, esta está passando nas redes sociais – você pode literalmente assistir a vídeos de pessoas em campo no TikTok e no Twitter. E poder assistir a guerra acontecer de perto e pessoalmente está tendo um impacto em muitos americanos – mas não necessariamente da maneira esperada.

Embora as pesquisas mostrem que a grande maioria dos americanos (especialmente veteranos e militares) se opõe à intervenção militar, vídeos do presidente ucraniano Volodymyr Zelenski ficando para lutar por seu país galvanizaram o apoio popular ao líder que antes era menos conhecido. O TikTok, em particular, está cheio de vídeos babando por Zelenski. Parece que a mulherada acabou de encontrar seu novo herói favorito.

@kimi19888 Don’t say I don’t feed you well 😋 #volodymyrzelensky #ukraine #president #toxic #pony ♬ Toxic Pony - ALTÉGO & Britney Spears & Ginuwine
@derrickhale3 #Ukrain #fyp #ukraine #ukrainetiktok #mycrush #prayforukraine🇺🇦 #zelenskiyofficial #zelensky🇺🇦 #zelensky #zelenskiy_official ♬ original sound - Josh Landry

E esse não é o único lugar em que ele está sendo idolatrado. O Twitter também está cheio de histórias da sua bravura e sua famosa citação: “preciso de munição, não de carona”.

Ironicamente, a Rússia, historicamente conhecida por seu domínio da propaganda, pareceu perceber que está perdendo a guerra da informação. Desde o início do mês, o Kremlin baniu o Facebook e o Twitter e está reprimindo os meios de comunicação que dizem a verdade sobre as ações do país.

Por que isso importa

Vamos ser claros sobre algumas coisas aqui: tudo isso é spin. Podemos estar lidando com uma guerra, mas ainda existe uma máquina política de relações públicas zunindo no meio de todas essas notícias, e a dramatização dos eventos, as imagens que você está vendo, elas têm um impacto nas pessoas. Histórias têm a capacidade de puxar as cordas do coração, o que, por sua vez, pode influenciar a maneira como o público se sente sobre a política externa.

Então, vamos nos certificar de que estamos na mesma página sobre algumas coisas aqui: Putin é um líder vil que não respeita a vida humana. Mas isso faz de Zellenskyy o “mocinho”? Não. Não podemos esquecer que este homem também está recrutando seu povo para lutar por ele. Além disso, seu histórico de liberdade de expressão e de imprensa também é notoriamente ruim. Podemos condenar um sem enaltecer o outro.

Francamente, esses vídeos e a bajulação nas mídias sociais são, bem… estranhos. Você consegue imaginar olhar para trás na Segunda Guerra Mundial e ver vídeos de mulheres cobiçando Churchill ou Stalin? Daqui a algumas décadas, será um pouco estranho para a antropologia olhar para trás.

Lembremos, porém, que as pessoas que controlam a narrativa geralmente controlam os resultados.

Na década de 1960, durante a Guerra do Vietnã, muitos ativistas contrários à guerra esperavam que as imagens da guerra nas telas das TVs seriam um divisor de águas. A teoria deles era que trazer o horror dos campos de batalha para as salas de estar dos americanos incitaria as pessoas contra a guerra. Embora o tópico ainda seja tema de debate, há razões para pensar que isso aconteceu.

Assim como também há motivos para pensar que as imagens de guerra que estão circulando atualmente nas redes sociais podem influenciar esse conflito. Mas os americanos precisam estar atentos aos propagandistas que já estão tentando usar essas imagens para obter apoio à intervenção militar em vez de apoio a uma posição antiguerra.

Albert Einstein uma vez disse: “Nada acabará com a guerra a menos que as próprias pessoas se recusem a ir para a guerra”. E isso nunca acontecerá a menos que as pessoas se tornem sábias o suficiente para ver além do teatro e da propaganda da guerra.

Assistir a guerra se desenrolar é horrível. Mas não se resolve nada enviando mais pessoas para o campo de batalha. Do jeito que está, a maioria das pessoas que lutam na Rússia e na Ucrânia não fazem a menor de ideia de por que estão lá. Eles são recrutados, manipulados emocionalmente, estimulados ao ódio por mentiras. Eles lutam por razões políticas que pouco importam para qualquer um além dos oligarcas que os governam.

Como James Madison escreveu em The Federalist Papers Nº 10, “Tão forte é essa propensão da humanidade a cair em animosidades mútuas, que onde nenhuma ocasião substancial se apresenta, as distinções mais frívolas e fantasiosas têm sido suficientes para acender suas paixões hostis e excitar seus conflitos mais violentos”.

Observar a injustiça se desenrolar – especificamente, a injustiça da guerra – certamente faz com que as emoções aumentem. Mas devemos estar atentos ao teatro da guerra e à narrativa de que enviar mais pessoas para a batalha protegerá vidas humanas. Não protegerá.

Autor: Hannah Cox

Hannah Cox é a gerente de conteúdo e embaixadora da marca da Foundation for Economic Education (FEE, “Fundação para Educação Econômica”).

Tradutor: Daniel Peterson

Esse texto é uma tradução da matéria originalmente escrita por Hannah Cox em 8 de março de 2022 para a FEE.

O texto original, em inglês, publicado sob a licença CC BY 4.0, pode ser conferido em:

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