Cabeça Livre

Não andamos sozinhos

Um dos motivos pelos quais sofremos durante tempos difíceis é que pensamos e agimos como se andássemos sozinhos.

Crédito da imagem: [Pixabay](https://pixabay.com/images/id-2602807/)

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Quando a pandemia da Covid estava começando e ninguém sabia o que pensar, eu me sentei em meu escritório em casa ouvindo uma transmissão do SoundCloud de várias gravações de corais enquanto eu trabalhava. Uma das gravações selecionadas era um reconfortante novo arranjo de uma antiga bênção irlandesa:

Que você veja a luz de Deus no caminho à frente quando a estrada em que você anda estiver escura.
Que você sempre ouça, mesmo em sua hora de tristeza, o canto suave da cotovia.
Quando os tempos estiverem difíceis, que a dureza nunca transforme seu coração em pedra.
Que você sempre se lembre quando as sombras caem: você não anda sozinho.

Continuei a ouvir essa música várias vezes desde aqueles dias sombrios, mas recentemente dei uma olhada mais de perto nas palavras e comecei a refletir sobre seu significado hoje.

Ainda vivemos em tempos sombrios, em que abundam as tristezas. Por causa disso, muitos de nós permitem que nossos corações endureçam em vez de empurrar as tristezas e escolher a alegria. Quando pensei nisso, percebi que um dos motivos pelos quais sofremos durante tempos difíceis é que ignoramos a linha final da bênção acima: pensamos e agimos como se andássemos sozinhos.

A ideia de uma epidemia de solidão é discutida de tempos em tempos, e foi levantada mais recentemente pelo Dr. Dave Chokshi, comissário do Departamento de Saúde de Nova York. Pesquisas mostram que quase 60% dos moradores da cidade “se sentiram solitários algumas vezes ou com frequência”, enquanto quase 70% “se sentiram isolados socialmente nas quatro semanas anteriores”, escreveu recentemente o comissário em um editorial da CNBC. “Apenas um terço dos entrevistados disse que poderia contar com alguém para apoio emocional.”

Certamente podemos culpar a pandemia por parte dessa solidão em Nova York – e no mundo todo – mas será que a pandemia realmente merece toda a culpa? O fato é que muitos americanos pioraram sua solidão por meio da rejeição da família e da comunidade.

Pense nisso. Em vez de escolher um relacionamento conjugal sólido e duradouro no início da vida, muitos jovens optam por simplesmente se juntarem e irem morar juntos, e fazem isso em série – ou se divorciam, como seus pais fizeram antes deles – e gradualmente se vêem velhos e sozinhos. Os casais que de fato escolhem o casamento muitas vezes empurram a criação dos filhos para um futuro distante porque os filhos são um inconveniente para o avanço na carreira e para a busca auto-indulgente de diversão. Esses casais às vezes percebem tarde demais que alguns pequenos pares de pés correndo tornariam a vida mais agradável.

Outras pessoas propositalmente se alienam da comunidade. Ser amistoso com aqueles que moram do outro lado do muro dá muito trabalho, assim pensam. E se juntar a uma igreja? Ora, isso significaria compromisso – tanto em termos de tempo quanto de dinheiro – e isso pode ser desconfortável, especialmente para aqueles que não querem trazer Deus para a equação.

Essa tendência em direção ao individualismo e ao afastamento das raízes e da comunidade ocorre quando “as condições [sociais] se igualam”, observou o cientista político francês Alexis de Tocqueville em seu livro de meados do século XIX, A Democracia na América. É então que as pessoas “não devem nada a ninguém” e “acostumam-se a se considerar sempre isoladamente”. Essa mentalidade pode ter seus benefícios, mas também serve para separar os indivíduos das próprias amarras de que precisam para manter conexão e estabilidade na vida:

Assim, não apenas a democracia faz cada homem esquecer de seus ancestrais, mas lhe oculta seus descendentes e o separa de seus contemporâneos; ela o volta sem cessar para si mesmo e ameaça encerrá-lo, enfim, por inteiro, na solidão de seu próprio coração.

Vivemos tempos em que a igualdade alcançou uma proeminência e uma importância nunca antes vista neste país, então, a julgar pelas palavras de Tocqueville, realmente não deveria nos surpreender que tenhamos tantos indivíduos solitários, perdidos e desconectados em nossa sociedade. Essa é uma situação triste. Mas não é uma situação que não possa ser remediada.

Quanto mais mergulhamos na comunidade – seja procurando uma igreja e nos envolvendo, ou compartilhando gentileza e conversa com aqueles no trabalho ou em nossos bairros – menos estaremos sozinhos. Mas a melhor maneira de garantir que não estamos sós, como sugere o pequeno poema irlandês acima, é nos certificarmos de que estamos caminhando pela vida com Deus. Estar em boas relações com Ele não apenas nos dá a companhia constante do Divino, mas também abre as portas para uma maior conexão com outros humanos que trilham o mesmo caminho ao segui-lo, garantindo que verdadeiramente não caminhemos sozinhos.

Autora: Annie Holmquist

Annie Holmquist é a editora da Intellectual Takeout (“Viagem Intelectual”). Quando não está escrevendo ou editando, ela gosta de ler, fazer jardinagem e passar o tempo com a família e os amigos.

Tradutor: Daniel Peterson

Esse texto é uma tradução da matéria originalmente escrita por Annie Holmquist em 18 de março de 2022 para a Intellectual Takeout.

O texto original, em inglês, pode ser conferido em:

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