Cabeça Livre

Covid-19: artigos científicos sobre a ivermectina, o novo remédio censurado

Segundo sites de notícias brasileiros como o G1 e o Olhar Digital, o YouTube atualizou suas regras e anunciou que vai remover vídeos que defendem uso de cloroquina e ivermectina para tratar Covid-19. De fato, na Política de informações médicas incorretas relacionadas à COVID-19 do YouTube, se lê:

Não publique no YouTube conteúdo que se encaixe em alguma das descrições abaixo.

Informações incorretas sobre o tratamento:

[…]

  • Conteúdo que recomenda o uso de Ivermectina ou Hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19
  • Afirmações de que Ivermectina ou Hidroxicloroquina são tratamentos eficazes contra a COVID-19

Embora essa redação possa ser recente, o fato é que a rede social tem feito isso já há algum tempo.

Por exemplo, a infectologista Roberta Lacerda deu uma entrevista à rádio 98 FM de Natal (RN) em 11 de fevereiro de 2021. Na entrevista, ela afirmou que “a ivermectina tem o poder de parar esta pandemia”, frase que foi destacada pela rádio no título do vídeo postado no YouTube. Dias depois, o vídeo foi removido. A agência de notícias Saiba Mais contatou a assessoria de imprensa da plataforma, que confirmou que o vídeo foi removido por “promover desinformação sobre Covid-19”. A rádio subiu o vídeo no Dailymotion:

Mais adiante, em 27 de fevereiro, a mesma infectologista deu outra entrevista a outra rádio de Natal, dessa vez a 96 FM. Curiosamente, essa segunda entrevista não foi removida do YouTube. Nela, a médica fez declarações, digamos, “corajosas”, vale à pena conferir:

Também no dia 11 de fevereiro, aconteceu em Porto Alegre (RS), conforme notícia do site Consultor Jurídico, que o TJRS julgou ação popular movida por integrantes do PSOL e proibiu a capital gaúcha de distribuir os medicamentos ivermectina e hidroxicloroquina para tratamento precoce da Covid-19. A prefeitura recorreu, mas a decisão da segunda instância, em 8 de março, manteve a proibição, como documentado pelo jornal Gazeta do Povo.

Com relação ao tratamento precoce com hidroxicloroquina, já mostrei em outro texto alguns artigos científicos (revisados por pares e publicados em revistas) que o embasam:

Nesse texto, mostrei também o site c19study.com (agora c19hcq.com, mudou de endereço), que reúne links para vários outros estudos sobre hidroxicloroquina e Covid-19.

Mas o que sabemos sobre a ivermectina? Quem está certo nesses casos?

Curiosamente, o mesmo site c19hcq.com também tem uma seção para ivermectina:

(Ivermectin, em inglês)

Essa seção também pode ser acessada diretamente pelo endereço c19ivermectin.com.

De maneira análoga ao site c19hcq.com, o site c19ivermectin.com tem feito o trabalho de acompanhar e listar estudos que relacionam a ivermectina à Covid-19.

Até agora, seu banco de dados reúne 89 estudos, dos quais 48 foram revisados por pares.

Segundo o site c19ivermectin.com, 18 ensaios clínicos mostraram que 81% dos pacientes melhoraram quando submetidos a tratamentos precoces, enquanto 20 ensaios clínicos mostraram que houve melhora de apenas 43% dos pacientes com tratamentos tardios.

Você não precisa confiar cegamente no c19ivermectin.com: ele traz links para todos os estudos listados, que você pode abrir, ler diretamente da revista e chegar às próprias conclusões.

Mostro a seguir alguns dos artigos científicos que encontrei listados nesse site.

Meta-análises

Uma meta-análise é um estudo que integra os resultados de vários estudos independentes sobre um mesmo assunto de pesquisa, em uma revisão sistemática da literatura que resume e combina os resultados desses estudos.

A infectologista Roberta Lacerda menciona dois pesquisadores em suas entrevistas. O site c19ivermectin.com lista duas meta-análises feitas por esses pesquisadores:

O Dr. Andrew Hill, do Departamento de Farmacologia da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, juntamente com outros pesquisadores ao redor do mundo que também assinam o trabalho, fizeram uma revisão sistemática de 18 ensaios clínicos controlados randomizados (randomized controlled trials ou RCTs) que combinavam dados de 2.282 pacientes. Concluíram que o tratamento com ivermectina reduziu a mortalidade em 75% e acelerou o tempo de recuperação clínica.

Esse estudo, divulgado em janeiro, foi mencionado em uma matéria do Brasil Sem Medo, criticada pelo Estadão. De fato, os pesquisadores afirmaram que há necessidade de mais estudos, mas também afirmaram que os existentes até então eram encorajadores.

Trecho traduzido da conclusão:

Apesar da tendência encorajadora que essa base de dados existente demonstra, ainda não é uma base de evidências suficientemente robusta para justificar o uso ou a aprovação regulatória da ivermectina. No entanto, a atual escassez de evidências de alta qualidade apenas destaca a clara necessidade de ensaios clínicos adicionais, de maior qualidade e em maior escala, garantidos para investigar mais detalhadamente o uso da ivermectina.

A Dra. Theresa Lawrie (mais conhecida por “Tess” Lawrie) é diretora da E-BMC (Evidence-Based Medicine Consultancy), empresa sediada na cidade de Bath, na Inglaterra, e que provê consultoria para o NHS (o “SUS” do Reino Unido) e a OMS.

A pesquisadora partiu de uma revisão da literatura feita pela FLCCC Alliance (Front Line COVID-19 Critical Care Alliance), que resumia os resultados de 27 estudos que avaliaram a ivermectina para prevenção e tratamento da Covid-19. Essa revisão, no entanto, não incluía meta-análises para a maioria dos resultados. A Dra. Tess Lawrie, então, realizou essa meta-análise para validar as conclusões da FLCCC. Na discussão do estudo, se lê:

Esta revisão e meta-análise confirmam que a ivermectina reduz substancialmente o risco de uma pessoa morrer de Covid-19 em provavelmente algo em torno de 65% a 92%, de acordo com dados de RCTs. A incerteza na evidência é sobre a extensão precisa da redução, não sobre a eficácia da ivermectina em si. Da mesma forma, quando a ivermectina é usada como profilaxia entre profissionais de saúde e contatos, é claro que a ivermectina reduz substancialmente infecções por Covid-19, provavelmente algo em torno de 88% (82% a 92%). Dados de numerosos RCTs em andamento ajudarão a determinar a extensão precisa do seu efeito protetor naqueles em grupos de risco.

Apesar da forte recomendação da FLCCC de que a ivermectina deveria ser implementada globalmente para salvar vidas da Covid-19, a maioria dos governos e profissionais de saúde ainda parecem não estar cientes deste tratamento profundamente eficaz contra a Covid-19. Não só a ivermectina é um medicamento seguro, eficaz e bem conhecido, a um custo estimado de menos de 10 centavos [de libra esterlina] por pessoa tratada com um comprimido de 12mg, ela parece uma droga realmente milagrosa no contexto da atual situação global da Covid-19. Orientações e protocolos sobre o uso da ivermectina para Covid-19 podem ser encontrados no site da FLCCC: https://covid19criticalcare.com.

Tanto esse estudo convenceu a Dra. Tess Lawrie em relação à ivermectina, que ela advocou por seu uso em uma carta que escreveu ao primeiro-ministro Boris Johnson em janeiro:

Há mais uma meta-análise que me chamou a atenção listada no c19ivermectin.com:

Os dois estudos apresentados até então eram pré-publicações (do inglês preprints), ou seja, projetos de artigos científicos que ainda não foram revisados por pares nem publicados em revistas científicas. Esse terceiro estudo é um artigo científico revisado por pares e publicado em março no Japanese Journal of Antibiotics.

Esse artigo é de coautoria do professor Satoshi Ōmura, da Universidade de Kitasato, no Japão, considerado o “pai” da própria ivermectina. Foi ele quem descobriu a ivermectina em 1978 junto de seus colegas William Cecil Campbell e Tu Youyou, feito pelo qual receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2015.

Segundo o artigo, a ivermectina tem sido amplamente usada desde 1987 — portanto, há mais de 30 anos. É um remédio extremamente seguro, bem conhecido e barato (inclusive, já há muitos genéricos disponíveis no mercado). Mais de 3,7 bilhões de doses já foram aplicadas na África e nas Américas Central e do Sul para controlar doenças tropicais negligenciadas, como oncocercose (“cegueira dos rios”) e elefantíase. A ivermectina também é amplamente usada em asilos em países desenvolvidos para tratar sarna.

Dado que é um remédio barato e muito usado, não há investimento das indústrias farmacêuticas para pesquisar sua aplicação à Covid-19, pois não haveria retorno financeiro mesmo que no final conseguissem aprovação para indicar o remédio contra a Covid-19. Por isso, os ensaios clínicos tem sido feitos, em sua maioria, por médicos com relativamente pouco financiamento e mão de obra, que se esforçam para tratar e prevenir a Covid-19 sem fins lucrativos. Além disso, os autores observam que as regulamentações foram pensadas apenas para ensaios clínicos conduzidos por empresas. As exigências legais dificultam que ensaios feitos por médicos consigam o número desejado de participantes em tempo hábil.

Ao longo do artigo, que totaliza 52 páginas, os autores discutem as meta-análises e os ensaios clínicos feitos e em andamento, como a ivermectina tem sido adotada em diversos países, dados epidemiológicos da pandemia de Covid-19 e declarações imprecisas feitas por autoridades em saúde. O artigo, publicado em março, é bem completo e fornece uma visão geral do que se sabe até agora sobre a ivermectina.

Os autores concluem que a ivermectina pode se provar de grande benefício para a humanidade, talvez comparável à penicilina — considerada uma das maiores descobertas do século XX.

Tratamento tardio com ivermectina

Esse artigo científico foi citado pela infectologista Roberta Lacerda em sua entrevista e também pelo artigo do professor Satoshi Ōmura. Ele foi pré-publicado em junho de 2020. Depois, foi revisado por pares e publicado sem quaisquer alterações na revista Chest em outubro de 2020.

Trata-se do primeiro ensaio clínico sobre o uso de ivermectina contra Covid-19 no mundo. Foi um estudo realizado em quatro hospitais no sul da Flórida, nos Estados Unidos, entre 15 de março e 11 de maio de 2020. Foram observados 280 pacientes hospitalizados, dos quais 173 foram tratados com ivermectina e 107 sem ivermectina. A maioria dos pacientes em ambos os grupos também recebeu hidroxicloroquina, azitromicina ou ambas. O hospital forneceu orientações, mas a decisão de qual remédio usar ficou a critério do médico.

O tratamento da Covid-19 com ivermectina foi associado a uma mortalidade mais baixa (15% no grupo que tomou ivermectina, contra 25% no grupo que não tomou), especialmente em pacientes com comprometimento pulmonar grave (38% versus 80%).

Eis um estudo brasileiro, feito pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo, em parceria com o Colégio de Medicina Albert Einstein, nos Estados Unidos. Esse é um artigo científico revisado por pares e publicado na revista Toxicology Reports em 9 de março de 2021.

Foi feito um pequeno RCT com um total de 32 pacientes com sintomas leves de Covid-19. Ao adentrar o hospital, os pacientes foram aleatoriamente designados para receber tratamento padrão ou tratamento padrão mais ivermectina. O uso da ivermectina não resultou em nenhum evento adverso sério. Todos os pacientes exibiram uma redução na carga viral de SARS-CoV-2 em 7 dias; no entanto, aqueles que receberam ivermectina tiveram uma diminuição mais consistente em comparação com os que não receberam. O estudo conclui que a ivermectina é segura em pacientes com SARS-CoV-2, aliviando os sintomas e reduzindo a carga viral. Este último efeito parece depender da dose utilizada.

Tratamento precoce com ivermectina

A seguir, dois artigos científicos revisados por pares e publicados em revistas científicas.

Publicado em 16 de fevereiro de 2021 no Journal of Medical Virology por pesquisadores da Universidade de Almançora, no Egito. Esse estudo trata de um ensaio clínico controlado não randomizado. Foram observados 62 pacientes leves e moderados precoces tratados em casa com uma combinação de ivermectina, nitazoxanida, ribavirina e zinco, assim como 51 pacientes de mesma idade e sexo em tratamento de suporte. Todos eles casos confirmados por teste RT-PCR feito com swab nasofaríngeo e sem comorbidades. Os resultados desse estudo confirmaram que o uso das drogas combinadas eliminou efetivamente o coronavírus da nasofaringe mais rapidamente do que a terapia sintomática. Houve apenas alguns efeitos colaterais, principalmente distúrbios gastrointestinais, mas sem mortalidade.

Publicado em 1º de abril de 2021 no International Journal of Health and Clinical Research por pesquisadores do Index Medical College, Hospital & Research Center, na Índia. O estudo, conduzido de abril a maio de 2020, observou 100 pacientes que testaram positivo para Covid-19 com idade entre 20 e 60 anos de ambos os sexos. Eles foram divididos em 2 grupos, ambos com 50 pacientes e ambos receberam hidroxicloroquina e azitromicina, sendo que os do grupo 2 receberam também ivermectina. Após 7 dias, não houve mortes nem reações adversas, mas quase todos os pacientes do grupo 1 ainda testavam positivo pra Covid-19, enquanto quase todos do grupo 2 já testavam negativo. Com isso, concluiu-se que o tratamento com hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina teve mais sucesso.

Profilaxia (prevenção) com ivermectina

A ivermectina pode ser usada até mesmo para prevenir a Covid-19, como mostram os artigos científicos a seguir, revisados por pares e publicados em revistas científicas. Vale observar que esses estudos foram feitos com profissionais da saúde trabalhando na linha de frente, os mais expostos ao vírus e com mais risco de contrai-lo e desenvolver a doença.

Publicado em 17 de novembro de 2020 no Journal of Biomedical Research and Clinical Investigation. Estudo conduzido por pesquisadores argentinos e australiano visou testar a combinação de dois fármacos na redução do risco de contágio por Covid-19: spray nasal de iota-carragenina — extraída de algas vermelhas, já se demonstrou antiviral contra rinovírus, herpes e encefalite japonesa — e comprimido oral de ivermectina — que também já se demonstrou antiviral contra vários vírus de RNA, como Zika, dengue, febre amarela e HIV.

Participaram um total de 1.195 profissionais da saúde de 4 hospitais na Argentina. Todos estavam saudáveis, sem sintomas de Covid-19 e testaram negativo antes de entrar para o estudo. O grupo controle teve 407 profissionais que se preveniram da Covid-19 usando apenas o equipamento de proteção individual (EPI), enquanto o grupo teste teve 788 profissionais que usaram o EPI e também o tratamento com iota-carragenina e ivermectina.

Resultado: do grupo que usou apenas o EPI, 237 trabalhadores (58%) testaram positivo para a Covid-19 em algum momento durante o estudo. Do grupo que usou a combinação de EPI, iota-carragenina e ivermectina, nenhum testou positivo.

Concluímos que ao usar ivermectina em solução oral e carragenina na forma de spray nasal, estamos fornecendo um meio barato, seguro e efetivo para proteger pessoas do contágio e formas graves da doença.

Não tem relação com a ivermectina, mas olha que curioso o que eu encontrei nesse artigo:

Embora a Organização Mundial da Saúde recomende o distanciamento de 1,5 metros para minimizar a transmissão, estudos recentes têm demonstrado alta estabilidade em aerossóis e distâncias de transmissão de até 10 metros das fontes emissoras.

Esse pessoal que repete “um metro e meio” feito um mantra por aí tá se enganando, hein?

Publicado em 15 de dezembro de 2020 no European Journal of Medical and Health Sciences (EJMED). Estudo feito por pesquisadores indianos acompanhou 118 profissionais da saúde previamente saudáveis que trabalhavam em uma unidade de isolamento Covid-19 de um hospital na cidade de Dhaka, capital de Bangladesh. Eles foram distribuídos em dois grupos: 60 no grupo controle e 58 no grupo teste, que recebeu doses preventivas de ivermectina. Ao longo do estudo, ambos os grupos foram expostos a pacientes admitidos no hospital que testaram positivo para Covid-19. Resultado: no grupo controle, 44 de 60 (73,3%) testaram positivo para Covid-19, enquanto no grupo teste, apenas 4 de 58 (6,9%) positivaram. Fazendo as contas, de 73,3% para 6,9% equivale a uma redução em 90% no contágio.

Conclusão

Os estudos mostrados aqui foram apenas alguns exemplos, mas há dezenas deles listadas no site c19ivermectin.com. Diante disso, é possível ver que há sim evidência científica que a ivermectina pode ser usada no tratamento e prevenção da Covid-19. Me parece inapropriado dizer que a ivermectina não tem eficácia demonstrada, é placebo, engodo ou mentira.

É o terceiro texto em que alerto para o que parece ser uma “torcida contra remédio”.

Concluo esse texto com afirmação semelhante à que fiz no texto sobre hidroxicloroquina:

Com esse texto quero dizer que sou a favor de prescrever ivermectina para todos os pacientes de Covid-19 sem distinção? Não. Sou a favor de algum outro remédio específico? Também não. Sou a favor, sim, que a decisão final seja do médico e do paciente. Penso que ninguém é melhor do que o próprio médico e o próprio paciente para ponderar as opções e, com base nas informações disponíveis, decidir qual remédio usar avaliando caso a caso.

Gostei da frase de Orwell lembrada pela infectologista Roberta Lacerda, encerro com ela:

Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. (George Orwell, imagem do site [Pensador](https://www.pensador.com/frase/NjQ4Mzk5/))

Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. (George Orwell, imagem do site Pensador)

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