Cabeça Livre

Nenhuma política consegue salvar vidas, apenas trocar vidas

"Fique em casa, salve vidas". Crédito da imagem: Stephanie Martin no Unsplash.

"Fique em casa, salve vidas". Crédito da imagem: Stephanie Martin no Unsplash.

“Se isso salvar pelo menos uma vida, valeu a pena” é um slogan vazio.

Em tempos de crise, políticos querem dar a impressão de que estão fazendo alguma coisa, e não querem ouvir falar nos limites da sua autoridade. Em tempos de crise, as pessoas querem que alguém faça alguma coisa, e não querem ouvir falar em tradeoffs (relações de compromisso, escolher certas coisas em detrimento de outras, “perde-e-ganha”). Esse é o terreno fértil para grandes políticas conduzidas pelo mantra “se isso salvar pelo menos uma vida, valeu a pena”. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, invocou o mantra para defender suas políticas de fechamento. O mantra tem ecoado por todo o país, desde de conselhos municipais a prefeitos, conselhos escolares, à polícia e ao clero como justificativa para fechamentos, toques de recolher, e distanciamento social forçado.

Pessoas racionais entendem que não é assim que o mundo funciona. Independentemente de reconhecermos ou não, tradeoffs existem. E reconhecer tradeoffs é uma parte importante da construção de uma política sólida. Infelizmente, mesmo a simples menção a tradeoffs em tempos de crise traz a acusação de que apenas monstros sem coração tentariam buscar um equilíbrio entre vidas humanas e dólares. Mas cada um de nós busca um equilíbrio entre dólares e vidas humanas, e entre dólares e uma infinidade de outras coisas, todos os dias.

Cinco mil norte-americanos morrem a cada ano por engasgo com alimentos sólidos. Poderíamos salvar cada uma dessas vidas impondo que todas as refeições fossem purês. Purês talvez não agradem a todos, mas se salvam pelo menos uma vida, devem valer a pena. Sua chance de morrer enquanto dirige um carro é quase o dobro da sua chance de morrer enquanto dirige um SUV. Poderíamos salvar vidas obrigando que todos dirigissem carros maiores. Os SUVs são mais caros e piores para o meio ambiente, mas se salvam pelo menos uma vida, devem valer a pena. Doenças cardíacas matam quase 650.000 norte-americanos a cada ano. Poderíamos reduzir a incidência de doenças cardíacas em 14% obrigando todos a se exercitarem diariamente. Muitos não vão querer se exercitar todos os dias, mas se isso salva pelo menos uma vida, deve valer a pena.

Legislar sobre qualquer uma dessas coisas seria ridículo, e a maioria das pessoas sãs sabe disso. Como nós sabemos? Porque cada um de nós faz escolhas como essas todos os dias que aumentam nossas chances de morrer. Fazemos isso porque tem limites para o que estamos dispostos a abrir mão para aumentar nossas chances de permanecer vivos. Nossas ações diárias provam que nenhum de nós acredita que “se isso salvar pelo menos uma vida” é uma base razoável para tomar decisões. No entanto, quando uma ameaça como o coronavírus surge, saímos à procura de uma cura imaginária que salvará vidas sem tradeoffs.

O presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis estimou que a atual paralisação induzida por políticos renderá 30% de desemprego e uma redução de 50% no PIB no segundo trimestre deste ano. Isso equivaleria a um preço de 2,6 trilhões de dólares apenas no segundo trimestre. Antes do distanciamento social, a projeção do pior caso pelo CDC para os Estados Unidos era de 1,7 milhão de mortes. Mesmo nesse pior cenário, e mesmo se o custo for somente uma redução de 50% no PIB por apenas um trimestre, a paralisação terá custado aos EUA 1,5 milhão de dólares por vida salva. Se as mortes que de fato acontecerem forem menores e o custo da paralisação for maior, o custo por vida salva poderá ser muito, muito maior.

O contra-argumento desgastado [ao custo da paralisação] é que deveríamos “dizer isso às famílias que perderam entes queridos para o vírus”. Mas isso corta ambos os lados, porque também podemos dizer isso às famílias que perderão seus entes queridos devido à pobreza, depressão, suicídio e violência doméstica que acompanharão uma taxa de desemprego de 30%. Nos Estados Unidos, a cada ano, ocorrem 10 milhões de casos de violência doméstica e mais de 47.000 suicídios. O lockdown aumentará esses números, somando ao custo de US$ 1,5 milhão por vida salva. As ligações para linhas diretas de saúde mental nos EUA aumentaram quase 900% desde o início do isolamento.

A verdade incômoda é que nenhuma política consegue salvar vidas, apenas trocar vidas. Boas políticas resultam em um tradeoff com saldo positivo. Mas não teremos ideia se o tradeoff tem um saldo positivo até examinarmos com um olhar sóbrio o custo de salvar vidas. E não podemos fazer isso enquanto não pararmos de repetir a falácia “se isso salvar pelo menos uma vida, valeu a pena”.

Não sabemos a taxa de mortalidade do vírus porque não realizamos testes randomizados. Não sabemos o custo da paralisação econômica porque nunca fechamos nossa economia antes. O que sabemos de certeza é que as políticas destinadas a impedir a propagação do vírus a todo custo são elaboradas mais por medo, do que por uma preocupação em salvar vidas. É hora de darmos uma olhar sóbrio para o que essa paralisação está nos custando.

Sobre os autores:

O Dr. Antony Davies é o Milton Friedman Distinguished Fellow na FEE, professor associado de economia na Universidade Duquesne e co-apresentador do podcast Words & Numbers.

James R. Harrigan é diretor executivo do Center for Philosophy of Freedom da Universidade do Arizona e o F.A. Hayek Distinguished Fellow na FEE. Ele também é co-anfitrião do podcast Words & Numbers.

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