Cabeça Livre

Covid-19: o sensacionalismo da mídia

No início do ano, enquanto a Covid-19 ainda não tinha chegado ao Brasil, eu não olhava as notícias vindas do exterior com tanto medo. Isso porque me lembrava de uma matéria que li em 2010 estudando pro Enem, quando o mundo enfrentava a gripe suína (H1N1).

A matéria comparava doenças e concluía que contágio e mortalidade são inversamente proporcionais, ou seja, as doenças que atingem muitas pessoas, matam poucas e vice-versa (as doenças que atingem poucas pessoas, matam uma porcentagem maior das pessoas atingidas). Lembro que a matéria citava a gripe como exemplo de doença pouco letal e a Ebola como exemplo de doença muito letal.

Também nesse ano (2020), em março, lembro de ter visto uma reportagem do Dr. Drauzio Varella no Fantástico explicando que, para a maioria das pessoas, os sintomas da Covid-19 seriam semelhantes aos de um resfriado.

Foi quando eu soube do primeiro caso confirmado em Florianópolis, cidade em que moro, em 12 de março, que comecei a acompanhar mais de perto as notícias e me deixei ser bombardeado pela quantidade de informações e paralisado pelo medo.

Rua do centro de Aracaju vazia durante a noite. Cena de [peça publicitária do Banese](https://www.instagram.com/p/B-Fd5j4AaW1/).

Rua do centro de Aracaju vazia durante a noite. Cena de peça publicitária do Banese.

Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber algumas coisas que me deixaram um tanto cético ao que vem da grande mídia. Hoje, estou de volta à minha primeira opinião sobre a Covid-19 (lembrando da matéria que li sobre a gripe suína em 2010) e estou um pouco mais tranquilo. Decidi escrever esse texto para compartilhar o que percebo.

Um jornalista da GaúchaZH escreve:

Como um filme de ficção, nossa vida foi radicalmente transformada na rotina da família, na ida ao trabalho, nas finanças, no lazer e até no sono.

Realmente, algumas notícias vindas da grande mídia parecem isso mesmo: ficção.

A seguir, mostro alguns exemplos de notícias que me deixam “com a pulga atrás da orelha”.

Previsão que não se confirma

Comecemos por essa notícia, publicada pelo Metro 1, em 25 de março:

Em 25 de março, de acordo com números oficiais, o Brasil acumulava até então 57 óbitos confirmados por Covid-19. A notícia fala de um suposto relatório produzido pela ABIN — Agência Brasileira de Inteligência — que previa que até 06 de abril de 2 mil a 5 mil pessoas morreriam por Covid-19 no Brasil, apresentando um cenário pessimista e outro otimista.

Hoje, 17 de maio, conseguimos ver o número de óbitos de fato registrado até 06 de abril — 553, no acumulado — e concluir que essa previsão não se confirmou.

Previsão sem data

Agora vamos a essa outra notícia, publicada pelo The Intercept, em 16 de março:

Essa notícia cita um estudo feito pela Universidade de Oxford que prevê que o coronavírus pode matar até 478 mil pessoas. Nessa previsão, só falta um detalhe essencial a toda e qualquer previsão: quando?

Fazendo uma analogia, se eu digo que vai chover, mas não digo quando, ainda que não chova hoje ou amanhã, mas se chover só mês que vem ou ano que vem, ainda estarei certo…

Numa troca de e-mails com o Intercept, Dowd explicou que a pesquisa não estima em quanto tempo esse número seria atingido.

Provavelmente, o jornalista teve a mesma dúvida que eu, no que mandou e-mail para o pesquisador e obteve essa explicação vaga. Ou seja, é mesmo uma previsão sem data.

Ao trazer uma previsão sem data, o estudo não é conclusivo, parece mais opinativo.

Dowd nos explicou que o estudo não têm condições de projetar qual seria a redução de mortes caso o governo tome medidas intensas, como o isolamento compulsório da população.

Se o estudo não consegue projetar a eficiência de medidas, como pode sugeri-las?

Incongruência lógica

Essa outra notícia, publicada pela Folha, em 28 de abril, apresenta uma incongruência lógica logo no início:

Se quem prevê o pico da pandemia está chutando, a autora também faz um chute ao dizer no início que “o avanço da Covid-19 no país parece estar ainda longe do fim”.

Estimativas imprecisas

Notícia publicada pela Veja Saúde em 11 de maio:

“Estima-se que entre 5% e 80% das pessoas com teste positivo para o Sars-CoV-2 possam ser assintomáticas”, comenta Tânia Vergara, infectologista presidente da Sociedade de Infectologia do Rio de Janeiro.

Algo “entre 5% e 80%” é muito impreciso para ser chamado de “estimativa”.

Imagine um meteorologista falando: “estima-se que amanhã a chance de chuva é algo entre 5 e 80%”. Diante de tamanha incerteza, fica difícil decidir levar ou não um guarda-chuva.

Contradição

A rede Globo entra em contradição ao noticiar a morte da mesma pessoa em dois telejornais diferentes informando causas de morte diferentes:

Erros acontecem, mas o que chama a atenção no caso é a falta de comunicação entre dois telejornais da mesma emissora, feitos na mesma cidade.

Sentimentalismo

Esse outro jornal é do mesmo grupo Globo:

Ao ler a notícia, parece um tanto sensacionalista, visto que é carregada de emoção:

Numa escalada de contágio que parece não ter fim, a Covid-19 destruiu mais uma família […] perdeu a batalha contra o vírus

A redação deu mais importância à emoção do que aos fatos, a notícia tem furos e perguntas sem respostas. Foi feito teste para Covid-19 e deu positivo? Em nenhum momento a notícia diz isso explicitamente. Ela insinua que houve Covid-19 enumerando os sintomas. Ela mesma diz também que no atestado de óbito consta outra causa morte. Além disso, geralmente os enterros de vítimas do coronavírus tem ocorrido com caixões fechados. A notícia diz que esse velório foi feito com o caixão aberto. Seria uma exceção?

Comparações desproporcionais

Chegamos a essa notícia, da semana passada, que faz comparações desproporcionais:

Essa notícia, de 06 de maio, afirma que o total de mortos por Covid-19 no Brasil — naquele dia, 8.536, segundo a própria notícia — superou o total de mortos por Covid-19 na Bélgica. A notícia seria mais completa se trouxesse também o total de mortos na Bélgica. Como ela não trouxe, busquei em outra fonte: 8.016. Olhando os números absolutos apenas, é fato.

Porém, essa comparação é desproporcional: Brasil e Bélgica não possuem nem a mesma área, nem a mesma população, o Brasil é muito maior que a Bélgica. É como comparar uma uva (só uma, fora do cacho) com uma melancia (inteira) e dizer que a melancia tem mais açúcar!

O Brasil tem uma área de 8,5 milhões de km² e uma população de 210 milhões de habitantes (números aproximados, fonte: Wikipedia). A Bélgica tem uma área de 30 mil km² e uma população de 11 milhões de habitantes (fonte: Wikipedia). A Bélgica possui uma população próxima da do Rio Grande do Sul (11 milhões de habitantes, fonte: Wikipedia) e uma área entre a de Alagoas (27 mil km²) e Rio de Janeiro (43 mil km², fonte: Wikipedia)

A comparação mais apropriada seria usando números relativos, dividindo o número de óbitos pela população, o que nos leva a 40 óbitos por milhão de habitantes no Brasil, contra 728 óbitos por milhão de habitantes na Bélgica.

Ou seja, é falso concluir que a situação no Brasil está pior que na Bélgica.

Sabe o que é mais interessante? Essa mesma notícia cita a Universidade Johns Hopkins. Olha o que eu encontrei no site dessa universidade:

Mortalidade nos países mais afetados. Fonte: [Universidade Johns Hopkins](https://coronavirus.jhu.edu/data/mortality). Acesso em: 13 de maio de 2020.

Mortalidade nos países mais afetados. Fonte: Universidade Johns Hopkins. Acesso em: 13 de maio de 2020.

Esse gráfico faz a comparação da forma mais apropriada e corrobora minha observação.

Curiosamente, naquela mesma notícia, ao falar dos testes, a notícia usa a métrica adequada: testes por milhão, ou seja, números relativos. Realmente, em termos de testes, o Brasil está bem pior que outros países. Mas é interessante notar que a métrica mais adequada só é usada quando é conveniente mostrar que estamos piores…

Coronavírus causa infarto e AVC?

Agora os jornais buscam relação de causa e efeito entre coronavírus, infartos e AVCs.

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