Cabeça Livre

Por que (quase) todas as notícias sobre a Covid-19 são más notícias?

Crédito da imagem: Raimond Spekking / Wikimedia Commons

Crédito da imagem: Raimond Spekking / Wikimedia Commons

Estudo da Ivy League mostra como a mídia dos Estados Unidos criou um clima de medo da Covid-19. O artigo do NBER, intitulado “Por que todas as notícias sobre a Covid-19 são más notícias?”, mostra como a mídia dos EUA colocou lenha na fogueira do pânico coletivo.

Em 18 de fevereiro de 2020, o jornal Oxford Mail publicou uma notícia intitulada “Cientistas trabalhando em uma vacina contra o coronavírus em Oxford”.

A notícia explicava que Sarah Gilbert, vacinologista britânica e professora da Universidade de Oxford, estava liderando uma equipe de cientistas do Instituto Jenner, da Universidade de Oxford, no desenvolvimento o mais rápido possível de uma vacina.

A notícia era curta (menos de 200 palavras), apresentava uma fala de Gilbert e não trazia qualquer previsão sobre o possível número de mortos.

Por meses, a pesquisa de Gilbert não foi coberta pela mídia dos Estados Unidos. E quando a mídia americana finalmente falou sobre ela meses depois, o histórico de sucesso dos pesquisadores de Oxford foi minimizado, assim como a possibilidade de desenvolver uma vacina rapidamente.

A notícia norte-americana mais antiga disponível (nos principais veículos de comunicação) é da CNN de 23 de abril, e começa com uma citação do diretor médico da Inglaterra, Chris Whitty, dizendo que a probabilidade de ter uma vacina ou tratamento “a qualquer momento no próximo ano” é “incrivelmente pequena”.

Assim explicam os autores do estudo do National Bureau of Economic Research (NBER):

Por que todas as más notícias?

Os autores do artigo do NBER — cujo título, em inglês, significa “Por que todas as notícias sobre a Covid-19 são más notícias?” — usam a cobertura da mídia sobre a pesquisa da vacina de Gilbert como um estudo de caso para destacar uma tendência maior: a forma única como a mídia dos EUA cobriu a pandemia do coronavírus.

Os autores do artigo — Bruce Sacerdote, Ranjan Sehgal e Molly Cook, que são do Dartmouth College e da Brown University — analisaram o tom das notícias relacionadas à Covid-19 escritas de janeiro a julho de 2020 e encontraram uma diferença marcante na forma como a mídia dos EUA cobriu a pandemia comparada com a mídia de outros países:

91% das notícias dos principais meios de comunicação dos Estados Unidos têm tom negativo, contra 54% das principais fontes não americanas e 65% das revistas científicas.

Sem dúvida, pandemias dificilmente são um assunto alegre. Não estamos falando de um bombeiro resgatando um gatinho de uma árvore ou de um conterrâneo ganhando na loteria. Mas isso não explicaria a discrepância na cobertura da mídia ou o fato de que desenvolvimentos positivos ocorrem sim em pandemias.

Isso nos convida a fazer uma importante pergunta: como a mídia dos EUA respondeu aos desenvolvimentos positivos?

“A negatividade da grande mídia dos EUA é notável mesmo em áreas com desenvolvimentos científicos positivos, incluindo reabertura de escolas e testes de vacinas”, descobriram os autores. “As notícias que relatam aumento nos casos de Covid-19 superam em número as notícias que relatam diminuição nos casos por um fator de 5,5, mesmo durante os períodos em que os novos casos estão diminuindo.” (enfase adicionada)

A tendência em direção à cobertura pessimista das notícias era tão aguda, observou James Freeman no The Wall Street Journal, que a mídia quase perdeu a incrível história do desenvolvimento da vacina que aconteceu bem debaixo do seu nariz.

Como afirma o relatório do NBER, dentre os maiores meios de comunicação norte-americanos, as notícias discutindo sobre o presidente Donald Trump e a hidroxicloroquina superam em número todas as notícias sobre pesquisa e desenvolvimento de vacinas.

Medo: o assassino de mentes

Em seu livro clássico Duna, Frank Herbert escreveu sobre o poder do medo.

“O medo é o assassino da mente”, escreveu Herbert. “O medo é a pequena morte que traz obliteração total.”

Para muitos, 2020 foi o ano mais temeroso de suas vidas. A pandemia de coronavírus trouxe incerteza, mudança e risco mortal. Uma certa dose de medo durante uma pandemia é justificada, claro. Mas existem maneiras racionais e irracionais de responder a ameaças, e essa é uma linha que os Estados Unidos cruzaram em 2020.

Na verdade, uma pesquisa desenvolvida por cientistas que trabalham com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americanos sugere que o vírus parece ter chegado aos EUA em dezembro de 2019. Isso significaria que o coronavírus estava nos EUA há meses e os americanos nem sabiam.

Mas assim que a mídia percebeu a doença e atiçou o pânico coletivo, o medo ganhou vida própria. Os cidadãos e, pior, os legisladores começaram a responder ao vírus de maneiras irracionais. A virologia básica “foi pras cucuias” e os 15 dias para achatar a curva se transformaram em uma ideia maluca de que temos que fechar a sociedade e nos proteger do vírus, desencadeando restrições sem precedentes à liberdade econômica e destruindo um número incontável de vidas e meios de sustento no processo.

Esse é o poder do medo. Ele fez com que muitas pessoas racionais, como Rich Lowry, da National Review, que em abril de 2020 chamou a oposição ao lockdown de “absurda”, de repente considerassem o sacrifício das liberdades civis existentes desde sempre inteiramente razoável porque acreditavam que isso salvaria vidas.

Hoje, é claro, sabemos que os lockdowns foram piores do que inúteis. Ao passo em que fizeram pouco ou nada para retardar a disseminação do vírus, seus danos colaterais falam por si. Um colapso global na produção econômica. Estima-se que 150 milhões de pessoas cairão na pobreza extrema em 2021. Um aumento histórico de depressão e isolamento social que terá consequências que reverberarão por décadas. Milhões de crianças estão sendo empurradas para ambientes de aprendizagem que parecem ser ainda piores do que os seus anteriores, apesar do fato de que autoridades de saúde têm dito há meses que fechar escolas não é uma forma eficaz de conter a propagação do vírus.

Novamente, esse é o poder do medo, e fez com que Lowry e os proponentes do lockdown esquecessem um antigo truísmo de Benjamin Franklin.

"Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança." (Benjamin Franklin, imagem do site [Pensador](https://www.pensador.com/frase/MzM3MA/))

"Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança." (Benjamin Franklin, imagem do site Pensador)

Infelizmente, geralmente é isso o que conseguem.

Autor: Jon Miltimore

Jonathan Miltimore é o editor-chefe da FEE.org. Sua redação/reportagem tem sido tema de artigos na revista TIME e nos jornais The Wall Street Journal, CNN, Forbes, Fox News e Star Tribune. Assina textos em: Newsweek, The Washington Times, MSN.com, The Washington Examiner, The Daily Caller, The Federalist, Epoch Times.

Autor: Jon Miltimore

Jonathan Miltimore é o editor-chefe da FEE.org. Seus escritos/reportagens tem sido tema de artigos na revista TIME, The Wall Street Journal, CNN, Forbes, Fox News e Star Tribune.

Ele assina textos nos seguintes meios de comunicação: Newsweek, The Washington Times, MSN.com, The Washington Examiner, The Daily Caller, The Federalist, Epoch Times.

Tradutor: Cabeça Livre

Esse texto é uma tradução da matéria originalmente escrita por Jon Miltimore em 01 de dezembro de 2020 para a Foundation for Economic Education (FEE, “Fundação para Educação Econômica”).

O texto original, em inglês, publicado sob a licença CC BY 4.0, pode ser conferido aqui:

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